@344333
02/11/2011
Eu adoro filosofia de botequim.
Tenho uns amigos que insistem que o esporte não desapareceu, só mudou de endereço e estilo. Dizem que foi para o tuíter, boteco em que ninguém precisa rachar a conta ou ficar exposto ao sol. Isso é legal, mas, mesmo assim, eu adoro filosofia de botequim porque na saideira tudo muda.

Não convém casar sem comer um quilo de sal, não há discussão antes dos 140 goles e, limitada a 140 caracteres, a tal filosofia perdeu completamente a graça. Sou antiquada, isso não se discute, e discutir com argumentos, afiando a língua e molhando o bico, tentando evitar a ambiguidade para chegar mais próximo do consenso – ou do dissenso – cheio de razões, está fora de moda. A moda é ser curto e fino – ou raso e grosso – dependendo do gosto do freguês. Sendo assim, peço a conta e desculpas ao gerente. Não tem wikipedia que me convença de que é possível ser mediocremente analítico, reproduzindo fragmentos do conhecimento universal fora de contexto, ou que se pode construir qualquer coisa aproveitável para o pensamento sem usar o desenvolvimento do raciocínio e do debate. A dura realidade é que ninguém mais está a fim daquelas intermináveis conversas de botequim onde, se é verdade que nunca se encontrava a solução para todos os problemas da humanidade, ao menos nos dava a garantia de sairmos fortalecidos na nossa capacidade de nos percebermos mais, ou menos, bestas. Geralmente mais bestas. Quase sempre mais fortes.
Nada disso. Para estar up-to-date-hoje-em-dia, o cara tem de se esmerar na solidão de suas próprias gugadas, debelar a crônica ignorância de todo comum mortal e sacar uma frasezinha de efeito, um trocadalho que seja, que o ponha em condições de desfilar como sujeito pensante na passarela da modernidade eletrônica. A conta vem com o contador que mensura seu sucesso.
Saudade do tempo dos 140 goles sem “não me toques”.
Na minha opinião, perdemos todos. Mas agora, que já me declarei uma dinossaura desavergonhada, ninguém vai se espantar com o fato de que, isolada no meu anacronismozinho, eu tenha partido para tentar encontrar algum substituto para o velho esporte recreativo que tanto amava: a filosofia de botequim. Nem que fosse como onanista. Foi mais ou menos por essas causas, e deste jeito, que me viciei em pesquisas virtuais de opinião. Não dou a mínima para os resultados: o que me delicia é ver a formulação das perguntas, ou a falta de imaginação de quem as faz, e o fato de ninguém perceber que este exercício na base da múltipla escolha – que quase nunca chega a três opções – é uma coisa dos infernos. Se não for a sacralização da preguiça mental, deve ser mesmo uma invenção maquiavélica. Lá está estampada na notícia do dia. Um fato cabeludo, cheio de implicações no passado, no presente ou no futuro. Cheio de personagens, emoções e mistérios. No canto direito – quase sempre é no canto direito – lá, descuidado, está o túmulo do pensamento. Aqui jaz a sua opinião:
a) vai dar certo
b) vai dar errado
c) não vai dar em lugar nenhum
d) foda-se a Eslovênia
Não se deixe influenciar.
Se quiser, feche a porta da direita com muito cuidado, pule essa parte e siga a maioria sem matutar muito ou pensar nada – às vezes é melhor pensar nada do que ficar nessa masturbação mental. Eu mesma, se lesse isso, diria que esta merda de frase-feita é mera punheta.
Se quiser discutir isso, marcamos na padoca da esquina e penduramos na conta do senso comum, ou retuítamos ao menos uma vez @344333
Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa uma boa mídia que não seja requentada.
Fim de papo.
Por Ana Souto
uma matéria conteúdo à beça! vou pendurar sua despesa no meu cabide, ana! lindo texto
obrigada!